quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

a fumaça


o silêncio de casa foi ocupado por aquela fumaça incômoda e densa de palavras, pensamentos e lembranças. ela lhe tirou o sono, a fome e a concentraçã em qualquer coisa que tentasse fazer. o tempo não passava. apenas a fumaça tomava conta de seu quarto. ao contrário de qualquer ato sensato vestiu a roupa que usou durante o dia e estava atirada sobre a cama, colocou um boné, prendeu os cabelos atrás, pegou alguns cigarros e o isqueiro que havia escondido e saiu noite a fora para uma caminhada. a cidade está tão morta que nem os bandidos andam na rua a essa hora. queria dissipar a fumaça. apesar do calor que a oprimiu no dia anterior hoje havia chovido e resfriado o dia. era isso. o frio a ajudaria. não colocou muita roupa propositalmente. caminhou, virou a esquina. nada de carros. nada de gente. certo fascínio por lugares públicos que tinha em si talvez a distraísse um pouco. talvez encontrasse alguém. o que não acreditava. talvez comprasse alguma bebida. o que também não acreditava. avenida. sinal verde. sinal amarelo. vermelho. para ninguém. apenas para si que andava a pé como habitualmente fazia. sentiu um pouco de medo, mas não deu valor algum para ele. quem carrega em si o que ela carrega não tem medo de nada. não por coragem, por não considerar nada de valor em si. sentia fome, mas era como se a fumaça tivesse em seu estômago também impedindo-lhe de sentir o gosto de qualquer coisa. seria apenas para preencher o lugar vazio. chegou numa praça e sentou no banco. somente mosquitos, algumas lâmpadas sujas emitiam luzes fracas e sequer prestou atenção se alguém passava. acendeu um dos cigarros amassados que havia trazido. tragou com força e achou desagradável o gosto do fumo. se sentiu sufocada. cuspiu. passou a mão no pescoço, nos olhos, nos seios pequenos. o rosto havia ficado gelado. queria expulsar uma fumaça com a outra. mas aquela que estava em sua casa não saía. havia fumaça até ali onde estava. havia começo, meio e fim naqueles bancos gelados. assim como o tempo que é soprado, se dissipa, porém ainda deixa um cheiro preso nas narinas e um gosto na língua.

2 comentários:

Mouroblog disse...

Onde há fumaça... também fogo

Escolta disse...

Essa fumaça, poderia ser a lembrança de alguém?